Não dói, mas não sara

Os lábios tentaram balbuciar qualquer resposta que fizesse o mínimo sentido,
Mas a vertigem me impediu de raciocinar
E me fez escolher o caminho que, em todos os casos, parece o certo:
O silêncio.

Fugi sem dar resposta, incapaz de forçar qualquer explicação,
Ciente de que talvez não fosse necessário explicação alguma.
Permaneci, ausente de presença,
Tentando compreender se o que doía
Era a partida
Ou tudo o que ficou antes dela.

Havia sentimento demais ocupando um corpo pequeno demais,
E qualquer palavra dita
Transbordaria em ruína

Vestígios, renascimento e identidade

Ao navegar nos instantes que outrora foram motivo de riso repentino, lembrei-me:
- do telefone que não toca;
- da combinação numérica que já não existe na agenda;
- do silêncio dos lábios que fazem questão de se manter assim;
- do destino que se deixa ser escrito por mãos pouco experientes.

Tento. Escrevo. Paraliso.

Habita em mim a dualidade do que permito e o que afogo. Sem afeto, sem efeito; não há resultados, não há avanço. Os dias difundem suas cores. Os meus amanheceres são um misto de confusões intrínsecas, sentimentos impermanentes e a existência de um eu que desconheço em mim.

Insisto em tentar sentir. E tudo que sinto ser, retorna ao mesmo ponto de partida.

Meus fragmentos insolúveis

Meus olhos escondem marés agitadas
O silêncio ocupa meu incômodo contido
A nobreza dos meus singelos sentimentos
Se cansa, se dá por vencida.

É tentador! Insisto em uma busca incessante
Encontrar o que foi perdido...
Mas o que não mais cabe em minhas mãos
Parece não mais pertencer a mim.
A fadiga me faz acreditar
Ser incapaz de conseguir entregar algo a qualquer alguém

À deriva, escrevendo meu próprio espaço e tempo,
Sinto-me um papel amassado, rasurado,
Cheio de palavras apagadas e reescritas.

Tantos porquês nadam em minha mente;
Talvez e de repente,
Eu consiga me alcançar
E me salve de mim.

E se fosse?!

Completamente entregue à minha parte incompleta
Brinco de ser outra
Faço de mim um novo emaranhado de gente
Talvez mais doce, mais amarga
Ou mais quente

Na intensa decisão de ser,
Meu comodismo se contorce
Os arrepios da mente se aguçam
Mas o medo não me alcança

Eu fico só, nua de alma;
Inteiramente entregue aos meus não ditos, aos meus não feitos
Nuances de tons inalcançáveis
Do Sol que não bate em minha janela

aspas
A cada nova linha que completo
Um novo amanhecer se faz aqui
Trazendo luz pra minha escuridão interna

As linhas em branco
Me concedem o poder
De traduzir as fagulhas do meu caos interno
E me aproximar cada vez mais de mim

(Em branco, escrito em 25 de abril de 2023)